terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Aprendiz I - Boas Surpresas


Bebo geralmente um ou dois cálices no jantar. Sei que taças usar e a que temperatura servir. Não erro muito na hora de combinar com a comida. Em um ou outro caso sei até porque aquela uva se desenvolveu melhor naquele lugar. Sei fazer cara de sabedoria ao observar o líquido contra a luz, girar a taça para ver as lágrimas, incliná-la e conferir o “halo aquoso”, aspirar fundo. Consigo identificar alguns aromas e até alguns sabores. Engano um montão de gente: lá na empresa cabe a mim escolher o vinho nos jantares com clientes importantes. E o melhor é que dou sorte na escolha em 90% das vezes. Mas no fundo, no fundo, não passo de um grande curioso. Tenho que confessar.

O que conheço de vinho? Pouca coisa, uma colcha de retalhos composta por informações esporádicas que pincei aqui e ali. Nunca me preocupei em me aprofundar, aprender mais, ler um pouco. Na verdade, sempre tive preguiça. E medo. Medo de refinar demais o paladar, ficar exigente e começar a gastar uma pequena fortuna.

Mas agora, com o Amuse Bouche, a coisa muda. Como escrever um blog que fala de comida sem saber o básico sobre vinhos? Preciso de um mínimo de bagagem. Preciso conhecer um pouco mais.

Resolvi “me mexer”. Semana passada, o Marco, um dos meus melhores amigos me convidou para uma degustação de vinhos de verão, numa loja da “Grand Cru”, bem perto aqui de casa. Foi a primeira vez que participei de um evento deste tipo. Num primeiro momento, fiquei com certo receio de encontrar pessoas chatas e “up nose”. Boa surpresa, eram apenas 17 participantes, gente interessante, descontraída e de bom papo. Super-leigos, curiosos (como eu) e iniciados. Perguntas de todos os “níveis” que foram muito bem respondidas pelo Marcel, dono da loja, que dirigiu a degustação.

Ao chegar, fomos, eu e a Gabriela, muito bem recebidos pela Betty, esposa do Marcel. À mesa (grandona, bem iluminada, para 20 pessoas), 5 taças (uma para água e 4 para os vinhos), cestas com pão italiano e, muito importante, as fichas de degustação. Olhei-as de lado e pensei: Putz, como é que vou preencher isto? Vou “pagar mico”. Segunda boa surpresa: Marcel conduziu a coisa de tal forma que foi fácil tirar minhas próprias conclusões, achar aromas e sabores escondidos, “compreender o que estávamos bebendo”.

Terceira surpresa: Gabriela, mais entusiasmada do que eu esperava, revelou-se muito talentosa para degustar.

Após provarmos o último vinho da noite, mais cestas, desta vez com pães variados, e tábuas de frios. Todos enturmados, o bate papo seguiu por mais uma hora e meia! Quanto custou tudo isto: R$ 45,00 por cabeça. Justíssimo para uma 4ª. feira sem grandes expectativas. Barato se eu levar em conta o quão agradável foi o encontro.

Última surpresa da noite: saber que os vinhos que experimentamos tinham preços muito honestos e acessíveis. Impossível sair sem nehuma garrafa.

Portanto, foi uma noite ótima. Animados, decidimos nos matricular num “curso básico”. Apenas para nivelar o conhecimento. Grande começo!

Degustação de Vinhos de Verão – Grand Cru Granja Vianna – 30.Jan.2008

1) Nocturno Brut – Espumante
- Vinícola Robino – Mendoza, Argentina
- 50% Chenin / 50% Ugni Blanc
- Método Charmat
Cor leve, aroma de cítricos e fermento, acidez e frescor acentuados, corpo leve, persistência média. Obs.: servi 6ª. feira passada, como aperitivo, num jantar aqui em casa. Convidados gostaram.

2) Vicar’s Choice Sauvignon Blanc 2007 – Branco
- Vinícola Saint Clair Estate Winery – Marlborough, Nova Zelândia
- Sauvignon Blanc
Cor levemente esrverdeada (para mim lembrou feno…), aroma muito, muito marcante de maracujá, depois goiaba e grama cortada no final. Acidez acentuada, corpo leve e persistência média. Obs.: para nós foi a revelação da noite. Adoramos este vinho!

3) Kankura Carbernet-Syrah 2007 – Rosé
- Vinícola Kankura SA – Valle de Colchagua, Chile
- 80% Cabernet Sauvignon / 20% Syrah
Cor salmon brilhante, aroma floral com toques de cassis (este cassis eu tive dificuldade em achar...quem percebeu foi a Gabi). Média acidez, corpo leve. Obs.: ficou prejudicado na seqüência da degustação pois o vinho anterior (Vicar’s Choice) era muito mais intenso. Eleito melhor rosé do Chile no Guia Descorchados 2008. O Marcel contou que anteriormente a Vinícola Kankura chamava-se “Hondo de Enseada”. Cultura (in)útil: Kankura quer dizer “cântaro” em Mapuche.

4) Humberto Canale Pinot Noir 2006
- Vinícola Humberto Canale – Rio Negro, Patagônia, Argentina
- Pinot Noir
Coloração rubi intensa. Aroma amadeirado, baunilha, cereja e, o mais legal, fumaça de charuto (gostei desta!). Equilibrado. Taninos médios, leve de corpo com média persistência. Gostei bastante.

8 comentários:

Gourmandise disse...

Bebemos este Kankura rosé geladinho numa tarde quente. Ficou ótimo com os petiscos de bar. Melhor que esperava.
abs,
Nina.

Rogério disse...

Pois é Nina! Gostei muito dele também. Não vejo a hora de fazer um pouco mais de calor aqui em S. Paulo para poder tomar mais uma taça!
Abraço
Rogério

Bete e Marcel disse...

Rogerio, adorei o cometário e tenho adorado suas receitas e dicas, que tal pensarmos algo em conjunto?....

Abraços.
Bete e Marcel

Luiz Horta disse...

Gostei do relato, estas degustações são ótimas. Quando se forma um grupo parecido e desencanado, sem eno-chatos pedantes é perfeito. É uma forma de conhecer diversos vinhos sem arrombar o bolso. Nalgum momento penso em formar um grupo do blog para provas. Vamos ver, ainda não deu tempo de colocar as idéias em prática.

Rogério disse...

Marcel, Bete, Puxa, seria um prazer! Vamos bolar alguma coisa sim!
Abração
Rogério

Rogério disse...

Luiz, o dia que você resolver...tou dentro! (isto é, se vocês aceitar curiosos como eu...).
Abraço
Rogério

Luiz Horta disse...

Claro!

Marco disse...

Rogério, parabéns pelo blog. Muito legal e descontraído.
Realmente o evento na Grand Cru da Granja foi muito agradável. Bom saber que teremos outro em breve.
Neste domingo saboreamos a garrafa de Vicar’s Choice Sauvignon Blanc 2007 que adquiri naquela noite da degustação. Vale ressaltar sua qualidade e sabor.
Um abraço,
Marco